por Márcia Guerra
colaboraram Mariana Bernardes e Igor Fidalgo (críticas cinematográficas)
O público carioca já pode provar do vasto cardápio cinematográfico do Festival do Rio, que todos os anos reúne na programação filmes inéditos e premiados em outras mostras célebres, além de workshops, debates e sessões especiais com a presença de personalidades do cinema mundial.
A abertura da 13ª edição do evento aconteceu ontem, em cerimônia realizada somente para convidados, no cinema Odeon BR, com a apresentação do novo longa-metragem de Pedro Almodóvar “A pele que habito”. A festa contou com a presença da atriz Marisa Paredes, protagonista da película do cineasta espanhol.
O maior festival de audiovisual da América Latina se estenderá por duas semanas, exibindo sua última sessão no dia 20 de outubro. São mais de 400 filmes de mais de 60 países, distribuídos entre cinemas e praças da cidade. Entre as obras mais aguardadas estão os longas-metragens “Inquietos”, de Gus Van Sant; “George Harrison: Living in the material world”, de Martin Scorsese; “Dark Horse”, de Todd Solondz; “Separação”, de Asghar Farhadi; e “4:44”, de Abel Ferrara.
FOCO NA ITÁLIA, NO TERROR
E NO DOCUMENTÁRIO
Além das mostras mais conhecidas -- Panorama, Expectativa 2011, Première Brasil, Première Latina, Midnight, Mundo Gay, Fronteiras, Dox, Filme Doc, Geração e Meio Ambiente -- entram na programação: Foco Itália, Imagens de Israel e Itinerários Únicos. O Festival do Rio também presta homenagem ao húngaro Béla Tarr, ao documentarista chileno Patrício Guzmán e apresenta uma retrospectiva do mestre do terror moderno, o diretor Dario Argento.
Neste ano, a programação ficou maior e conta com 40 locais, incluindo três novas salas do circuito Kinoplex (Tijuca, Leblon e Fashion Mall), o cinema do CCBB, Cinemateca do MAM, Cine Sesc Jacarepaguá e Complexo do Alemão. O Armazém 6 do Cais do Porto, endereço da nova sede do evento, abrigará todo o segmento de negócios do Festival do Rio, o Cine Encontro, as sessões populares da Premiere Brasil, entre outras atividades.
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Ao longo da semana, falaremos mais sobre o circuito de negócios do Festival do Rio.
Abaixo, duas críticas de filmes assistidos pela equipe de noBico nas exibições que o Festival do Rio montou para imprensa.
QUANDO UM ESTADISTA
LUNÁTICO PASSA DOS LIMITES
"O dublê do diabo" ("The devil's double", título original) realmente faz jus ao nome. O ator britânico Dominic Copper interpreta dois personagens, Latif Yahia e Uday Hussein. O primeiro deles, um tenente do exército iraquiano nos anos 80, é contratado para virar sósia do filho de Saddam Hussein, um jovem sádico, ganancioso, extravagante, mimado, arrogante e consideravelmente psicótico -- parecido com Tony Montana de "Scarface". Latif é obrigado a aceitar o emprego depois de torturas e ameaças contra sua família e daí começa a história.
Luxo é o pano de fundo da trama, já que festas, mulheres, carros, drogas e armas fazem parte do dia a ia da família do estadista iraquiano. Porém todo o luxo não cobre a podridão dos atos de Uday: estupros, assassinatos, torturas e uso constante de drogas. Latif não aprova nada o jeito do seu “clone” e deixa isso claro apesar de aguentar, até seu limite, calado.
Dominic Cooper vai crescendo conforme o longa se desenrola, sobretudo em relação às mudanças físicas que teve que enfrentar. Como Latif, passa por uma certa adequação e comodidade com seu papel até começar a discordar visivelmente do "gêmeo" mal. Daí para não obedecê-lo mais é um pulo.
Se não soubéssemos que a história de Latif Yahia é real, tudo pareceria extravagante e absurdo demais. Mesmo sendo uma dapatação biográfica, algumas cenas soam overs, como víceras exageradamente saindo de um corpo.
Numa história de tantas reviravoltas, o destaque máximo é Cooper, cuja interpretação do lunático à beira da desumanidade coaduna, por vezes, valores e empatia. (Mariana Bernardes)
* As sessões de "O dublê do diabo" hoje no Estação Sesc Ipanema 2 acontecem às 15h30 e 19h50.
ARAUTOS
DA LIBERDADE
A juventude sexualizada que aparece na adaptação cinematográfica de "Capitães da areia" não poderia ser mais atual. Tendo em vista que o livro de Jorge Amado data de 1937, sua neta Cecília, diretora do longa, trouxe para uma Salvador híbrida e atemporal o mesmo Pedro Bala (vivido por Jean Luis Amorim) que está nos mais de 5 milhões de livros vendidos -- sendo 600 mil só nos últimos dois anos. Por mais que a direção de arte de Adrian Cooper seja cuidadosa (um charme ver os taxímetros mecânicos de época nos táxis que aparecem descendo e subindo as ruas), a Salvador de "Capitães da areia" é muito próxima da cidade que conhecemos hoje.
Não só em forma ou gênero; também em conflitos e questionamentos. Em cena, baianas típicas, homens jogando capoeira, quengas de sobrados, trapaças no carteado. De diferente, talvez só alguns pontos sociais (como o preconceito a doenças ainda então desconhecidas).
Para entender a história de Pedro Bala e seu bando, não é preciso voltar a 1937. O garoto revolucionário, que criou o grupo Capitãos da Areia para abrigar e proteger meninos de rua, é um ladrão. Rouba no jogo de cartas, com baralho marcado, ora para comprar comida para a quadrilha, ora para pagar prostitutas. Seriam como os meninos de rua de hoje em dia? Pedro Bala é respeitado por sua quadrilha e isso lhe inspira uma forte personalidade ética.
A chegada de uma menina no trapiche desestabiliza o grupo e fortalece o conceito sexual que apontei no começo do texto. Meninos na puberdade, encaram que "mulher é de uso" e que Dora (Ana Graciela Conceição, superdoce), embora seja uma menina, está ali para ser usufruída. Pedro Bala, a princípio, faz coro, mas logo proibe que se aproximem de Dora, que, pouco a pouco, vai conquistando seu lugar como revolucionária do litoral. Antes de namorar o líder dos Capitães da Areia, ela vai à roda de capoeira, de cabelos presos e vestindo roupa de menino, para aprender a jogar.
Robério Lima, na pele do gente boa Professor, incentiva a garota que provavelmente influenciou tantas mulheres masculinas que pipocaram na literatura brasileira nos últimos 70 anos
Em termos plásticos, o filme se assemelha a uma natureza-morta, já que a naturalidade é sua maior assinatura fotográfica. Do ponto de vista de montagem, cortes secos (como o dos primeiros segundos da fita), edição dinâmica (o sexo de Pedro Bala com uma doméstica intercalado ao furto à mansão do colecionador e Sem-Pernas mergulhando na praia, de roupas) e congelamentos (a transa de Dora e Bala tem freezes cheios de vida) dão o tom.
Os diálogos com malemolente sotaque soteropolitano e a caracterização dos personages também chamam atenção. Mas, sobretudo, é a escolha de elenco que mais fez o longa-metragem de Cecília Prado feliz. Christian Durvoort (diretor de elenco de "Ensaio sobre a cegueira" e "Cidade dos homens") passou quatro meses em ONGs selecionando não-atores para os papéis. Toda atenção é pouca para Jean Luis Amorim (um novo Thiago Martins) e para os jovens que interpretam Professor, Sem-Pernas, Gato, Boa Vida, João Grande, Pirulito e Volta Seca. (Igor Fidalgo)
* As sessões de "Capitães da Areia" acontecem hoje no Odeon BR, às 19h15, e amanhã no Estação Sesc Rio 3, às 9h30.
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