por Márcia Guerra
colaboraram Lucas Andrade e Igor Fidalgo (críticas cinematográficas)
“Anderson Silva: como água” abre a sessão de filmes esportivos do Festival do Rio desta quinta. O longa de Pablo Croce sobre o lutador brasileiro que é o atual campeão peso médio do Ultimate Fighting Championship (UFC) venceu o prêmio de melhor direção para documentaristas no Festival de Tribeca deste ano. Para quem gosta de futebol, temos o dinamarquês "Superclássico", sobre um homem que, após perder a mulher para um jogador, tenta recuperá-la através de uma disputa de pênaltis, e o venezuelano "Irmão", que narra o divisor de águas na vida de dois irmãos de criação quando são descobertos por um olheiro. "A era dos campeões", documentário de Cesário de Mello Franco e Marcos Bernstein, é sobre o automobilismo brasileiro.
O público poderá conferir também “Memórias de minhas putas tristes”, baseado no romance homônimo de Gabriel García Márquez, que estará em exibição no Estação Sesc Botafogo 1. Hoje estreia na programação o documentário “Primeira página: por dentro do New York Times”, de Andrew Rossi, que investiga as atuais transformações da prática jornalística e o desafio de conviver com as novas plataformas de tecnologia (o qual já falamos aqui).
Abaixo, duas críticas de filmes que serão exibidos hoje no Festival do Rio.
ECOS
RODRIGUEANOS
A premissa do “homem-mais-velho-casado-com-uma-linda-mulher-jovem-que-desconfia-estar-sendo-traído” pode parecer um pouco batida, mas "Naomi" ("Hitparzut X", título original), longa franco-israelense baseado no romance de Edna Mazya, chega a surpreender. O famoso cientista Ilan Ben Natan de 56 anos leva uma vida apaixonada ao lado da bela jovem Naomi, de 28 anos. Seu amor sempre foi suficiente pra suprir seus ciúmes e inseguranças até que um dia, ao seguir Naomi, Ben Natan descobre que seu pior pesadelo se realizará.
Durante o filme, o espectador acompanha os conflitos de Ben Natan, consciente de que sua mulher vive um caso e, as consequências desencadeadas por esta descoberta. Sua conduta de bom homem se choca diretamente com as suas ações, executadas em um momento de descontrole.
Ao longo do roteiro, o diretor Eitan Zur define momentos de humor através da relação de Ben Natan com sua mãe -- uma senhora um tanto peculiar, vivida pela ótima Orna Porat. Ela se mostra indispensável à trama.
Envolto numa fotografia minimalista, que faz uso de contrastes fortes e luzes pontuais, além de momentos de penumbra e pouca exposição, a fita ganha em tensão e realismo. Quando o filme começa a se perder no conflito interno vivido por Ben Natan, o roteiro nos reserva uma interessante surpresa, que trás um sopro de frescor ao final. (Lucas Andrade)
* As sessões de "Naomi" hoje no São Luiz 4 acontecem às 14h e 19h.
NOS EMBALOS
DO HORÁRIO NOBRE
É possível reunir todas as tramas de uma telenovela em 105 minutos de filme? Em "A novela das 8", o diretor Odilon Rocha conseguiu. A trama é ambientada em 1978, quando o Brasil assistia "Dancin' Days" para desobstruir a opressão da ditadura militar. Dora (Claudia Ohana) é amiga de Amanda (Vanessa Giácomo), uma garota de programa de luxo que tem, na sua cartela de clientes, militares e policiais. Enquanto Amanda reclama que só marcam os transas na hora de sua novela, Dora chora pelos ecos do golpe. Ex-revolucionária, ela é mãe de Caio (Paulo Lontra), jovem gay que só tem a amiga Mônica (Thaís Müller) como confidente e fica arrasado quando descobre que seu primeiro caso, o diplomata João Paulo (Mateus Solano), é casado com uma mulher. Ah: Caio é filho de Dora com Vicente (Otto Jr.), líder de grupo socialista. E ela deixou o filho com os avós temendo represálias militares.
Melodramática graças a Deus, "A novela das 8" tem sinopse típica de horário nobre. Mistura comédia, drama e romance; tortura, abandono, questão gay; extorsão, política, prostituição. Os diálogos são fáceis, nada empapados, para que todas as idades possam digerir -- afinal, a história podia estar sendo passada na hora do jantar.
Por momentos, algumas histórias parecem pouco conectadas. Se fosse uma telenovela, os núcleos dos revolucionários, dos estudantes e as histórias pontuais seriam melhor desenvolvidos. Mas como são só 105 minutos de trama, seria mais orgânico se a questão militar fosse diluída para que a relação de Dora e Caio pudesse engatar mais, por exemplo. Numa novela, com quase 200 capítulos ou mais, isso certamente ganharia mais força. Mas num filme de cinema ficou reticente.
Alexandre Nero confirma seu rigor expressivo para vilões como o policial Brandão, perverso e vil. Vanessa Gioácomo, finalmente, conseguiu se livrar do carma dos personagens bonzinhos que fizeram sua fama (bye, bye Zuca) e está exageradamente à vontade e divertida como a maluquete Amanda. Atenção para o estreante Paulo Lontra, que, mesmo com alguns problemas de dicção, se entregou a toda ao personagem Caio -- em especial aos beijos e amassos com Mateus Solano, injetando veracidade a cena gay da fita.
Pois depois de "Do começo ao fim", longa de Aluízio Abranches sobre dois meio-irmãos que namoram, se um ator disser que não beija homem em cena aberta, certamente vai perder o papel para outro que tope -- ao exemplo das cenas picantes protagonizadas pelos héteros Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcelos no filme em questão
Cena de "A novela das 8" que fica na memória: Caio, Mônica, Amanda e Dora dançando na The Frenetic Dancin' Days, a discoteca da novela que, na verdade, era de verdade e funcionava no Morro da Urca. (Igor Fidalgo)
* As sessões de "A Novela das 8" hoje no Roxy 2 acontecem às 14h e 19h.
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SAIBA MAIS: Veja as críticas de "A pele que habito", por Sabrina Fidalgo; "O dublê do diabo", "Invisível" e "Terraferma" por Mariana Bernardes; "Contágio", "Corpo celeste", "Não me esqueça, Istambul" e "Um homem engraçado", por Márcia Guerra, "A tiro de pedra" e "Jean-Paul Gaultier, quebrando as regras", por Gilberto Júnior, "Capitães da areia", "Tees Maar Khan - O malandro indiano" e "Triângulo amoroso", por Igor Fidalgo.
SAIBA TAMBÉM: Leia reportagem sobre o que personalidades LGBT querem ver na mostra Mundo Gay, relatório eficiente sobre os workshops do Rio Market e lista sobre os filmes que retratam os estilos de vida de estilista, editora de moda, chef de cozinha, empresário da noite e antropólogo.